Fim-de-semana “Nas Nuvens”

O último filme protagonizado por George Clooney  não garante apenas bom entretenimento. As gargalhadas são garantiadas, mas a base da narrativa passa pelo drama existência de homem, Ryan(George Clooney)  sem raízes.

Para o viajante , o prazer é um conceito tão variável que impossibilita a atribuição de um valor padrão. Para o comum mortal, a ideia de viajar está associada a uma forma de quebrar com as rotinas, uma oportunidade para explorar o desconhecido. Mas Jason Reitman decidiu perverter o estereótipo. Em “ Nas Nuvens”(“Up In The Air”), o realizador aproveita as mudanças bruscas impostas pela subida dos preços dos combustíveis e pelos efeitos da bolha imobiliária para apresentar um dilema existencialista : O que é mais valioso: A leveza ou o peso?

Ryan Bhingam (George Clooney) é um bon vivant que consegue retirar o melhor de uma profissão pouco atraente do ponto de vista humano. A sua capacidade de comunicação fez com que o profissional de recursos humanos apenas seja solicitado no momento em que é preciso rescindir contrato com os quadros “dispensáveis”. O cenário catastrófico desenhado por cada desempregado não consegue suscitar qualquer indício de compaixão. As mulheres, os filhos, a casa, as recordações dos momentos felizes são, para Ryan, o incomodo excesso de peso que conduz à imobilidade.

As situações de crise, as lágrimas derramadas, e as ameaças de suicídio têm uma recompensas: as viagens, O desgaste emocional é atenuado sempre que entra a bordo do avião, não pelo prazer de viajar, mas pelo objectivo de acumular 10 milhões de milhas no cartão de fidelização da transportadora aérea. Os nomes da cidades mudam, mas tudo é impessoal. Os aviões distinguem-se pelos autocolantes colados no exterior, os quartos de hotéis parecem siameses e o relacionamento humano não ultrapassa o limite imposto pelo protocolo. O estilo de Ryan é um exemplo a seguir. Além do trabalho, o protagonista dá conferências, pagas a peso de ouro, sobre motivação, mas só os pontos têm valor.

A crise que deixa milhares no desemprego também põe em causa o objectivo de vida do protagonista. Em tempos de crise, todos os custos são supérfluos. Natalie Keener (Vera Farmiga), 23 anos, é uma recém licenciada acabada de chegar ao mercado de trabalho. A jovem colaboradora encontra uma forma quase miraculosa para reduzir a curva das despesas. As novas tecnologias são a solução. Alex propõe às chefias que os despedimentos sejam feitos através de videoconferência. O monitor passa a desempenhar o papel de médium: a empresa reduz custos, mas impessoalidade passa a conhecer o seu auge, num momento difícil para quem perde a estabilidade do rendimento.

Os motivos éticos são belos. Despedir alguém através de videoconferência pode ser desumano, mas Ryan apenas deseja continuar a voar com a sua mala quase vazia..O peso retira mobilidade ao ser humano, retira o prazer de viajar pelo Mundo. O chefe sugere uma viagem a dois, uma oportunidade para o protagonista revelar as vantagens da comunicação interpessoal face às novas tecnologias. Dois Mundos distintos são obrigados a conviver durante dias. De um lado, o homem que assume não desejar qualquer compromisso; ela, aos 23 anos aspira ao casamento tradicional e à vida em família.

Entre as viagens de negócios, Ryan conhecera  Alex Goran (Vera Farmiga)) num bar. O conhecimento trava-se com uma batalha, onde ambos aproveitavam para ostentar os cartões de fidelização de inúmeros serviços essenciais para quem passa a vida a viajar. Os troféus antecedem a entrada no impessoal quarto de hotel.

As medidas de contenção e o casamento da sobrinha, Julie Bingham ( Melanie Lynskey), fazem com que o protagonista questione o seu objectivo de vida. Para a cerimónia, Ryan convida a mulher seduzida pela guerra de cartões.

A existência do ser humano até pode ser destituída de fundamento, mas o absurdo pode ser mais suportável a dois. “Nas Nuvens” é uma reflexão sobre o papel do homem do Mundo. O peso dos afectos surge como a antítese de uma vida sem laços. Ryan tornou-se o homem mais jovem a acumular 10 milhões de milhas, mas onde é a sua casa?

Jason Reitman, realizador, aproveita um momento de transformação social para fazer uma questão que inspirou dezenas de sobras transversais ao cinema e à literatura: desde A Insustentável Leveza do Ser, onde Kundera reflecte sobre o peso e a leveza da existência humano, até ao conflito entre materialismo/ imaterialismo apresentada por Andrei Tarkovsky em ”Solaris” (1972) ou no remake realizado em 2002 por Steven Soderbergh, também protagonizado por George Clooney. Tal como acontece com estes títulos, “Nas Nuvens” é uma profunda reflexão sobre a condição humana.

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