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Infância

13 de Setembro de 2009

O passado surge sem intencionalidade. Uma tarde solarenga convida à leitura da jornalada numa esplanada qualquer – quem me conhece sabe que a aleatoriedade se restringe a o Zoo de Lisboa – enquanto trabalho para o bronze preferido pelo motorista da carris: onde falta pano, sobra bronze.

A s notícias impressas na papelada levam-nos à catedral, entenda-se Colombo. Um sacrifício tão improvável como a hipotética conversão de Ferreira Leite ao rosa socialista ou à construção de uma paragem para o TGV em Arruda dos Vinhos ou em Vale Fetal. A causa era nobre: O último romance do Nick Cave (A Morte de Bunny Monro) – leia-se segundo – estava à nossa espera na prateleira da Fnac.

As palavras impressas são preciosas, mas o espaço é dispensável. A glória,  pensámos, estava coberta pelo plástico amarelado do saco. Protegido pelo invólucro descartável, nada atinge o livro. Os pés galgam a calçada contra um mar de gente que vinha da Feira da Luz, uma recordação da infância. Fora do papel, os diálogos são vernáculos. As frases são editadas pela injustiça do imediato e invadem os ouvidos, mesmo os desatentos.

– Vamos comer? , pergunta uma cinquentona, com o dobro em peso, ao grupo de amigas.

– Outra vez?, retorque a companheira de compras domingueiras. Ainda agora acabei de arrotar ao bife que comi ao almoço.