Archive for the ‘conversas’ Category

Sobremesa de campeão

11 de Maio de 2010

A tasca é um lugar complexo. Não se deixem enganar pela aparente banalidade das conversas, ou pelo inconsequente ruído atirado pela televisão, em que o ecrã grita mais alto do que as colunas. No estabelecimento do César todas as palavras são importantes. Enquanto a colher agride o pires, e este dá uma palmada nas longas costas do balcão frigorífico, os homens substituem os mais notáveis comentadores com opiniões tão escorregadias como óleo depositado no grelhador. O enredo da telenovela substitui o jornal da tarde. O Papa e o SLBenfica, que fizeram esquecer a crise, também se tornam pequenos perante o enredo da novela que conta a história de uma qualquer família mafiosa brasileira, que tem um comportamento italiano. Com o cotovelo bem apoiado sobre o balcão, uns sussurram a palavra “bandido”, outros optam, ou por um som acetinado e dizem “malandro”, ou pela acústica  virtuosa da palavra “vigarista”.

– Isto só ensina coisas para a bandidagem. Depois querem que não haja assaltos. Já agora, ó César, dá-me cá uma ferradura
-Vais comer isso com Whisky?
-Apetece-me, pá
-Epá, estás mesmo a precisar duma.


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O primeiro dia Eslavo

23 de Setembro de 2009

Um átrio gigante separa a rua das escadarias que levam às salas da Faculdade de Letras, uma espiral de degraus que aparenta ter a mesma função de uma passadeira num ginásio. Por mais rápida que seja a cadência pautada pelas pernas, o olhar vagueia na repetição do cenário que insiste na sua teimosia, inalterável. O átrio leva às escadas, os degraus a uma sala, a sala a uma torre de Babel, apenas com uma pequena amostra europeia. A professora de nacionalidade russa fala sobre o programa de História Eslava , enquanto o meu colega do lado, o Eugénio,(ucraniano)  recorda como o site da faculdade é confuso e a colega da frente (moldava) informa que no próximo ano vai fazer Erasmus.

A meio da conversa a porta ganha movimento. Entram mais três colegas – um casal polaco, em pânico, porque não percebiam uma palavra de português – acompanhados por um rapariga espanhola que tinha um inglês muito semelhante ao de Penelope Cruz em Vicky Cristina Barcelona.  A História fez com que a porfessora não aprendesse nem polaco nem inglês, na Universidade de Moscovo, mas ainda assim perguntou:

– Não sabem fala Russo?

– Só inglês, respondem timidamente

– Eu sou ucraniano, diz Eugénio, percebo Polaco.

O esforço foi notável, mas em vão. Os ibéricos olhavam para a confusão instalada.

– Hablas Español?

– No.

– Como non hablas español, es português.

-Tu hablas portugues?

– No.

Es lo mismo. We can talk in english( a velocidade da fala era, mesmo, a maior inimiga da compreensão

E foi mesmo o inglês que conseguiu unir os povos europeus.

Infância

13 de Setembro de 2009

O passado surge sem intencionalidade. Uma tarde solarenga convida à leitura da jornalada numa esplanada qualquer – quem me conhece sabe que a aleatoriedade se restringe a o Zoo de Lisboa – enquanto trabalho para o bronze preferido pelo motorista da carris: onde falta pano, sobra bronze.

A s notícias impressas na papelada levam-nos à catedral, entenda-se Colombo. Um sacrifício tão improvável como a hipotética conversão de Ferreira Leite ao rosa socialista ou à construção de uma paragem para o TGV em Arruda dos Vinhos ou em Vale Fetal. A causa era nobre: O último romance do Nick Cave (A Morte de Bunny Monro) – leia-se segundo – estava à nossa espera na prateleira da Fnac.

As palavras impressas são preciosas, mas o espaço é dispensável. A glória,  pensámos, estava coberta pelo plástico amarelado do saco. Protegido pelo invólucro descartável, nada atinge o livro. Os pés galgam a calçada contra um mar de gente que vinha da Feira da Luz, uma recordação da infância. Fora do papel, os diálogos são vernáculos. As frases são editadas pela injustiça do imediato e invadem os ouvidos, mesmo os desatentos.

– Vamos comer? , pergunta uma cinquentona, com o dobro em peso, ao grupo de amigas.

– Outra vez?, retorque a companheira de compras domingueiras. Ainda agora acabei de arrotar ao bife que comi ao almoço.

Os destinos da bola

9 de Setembro de 2009

O futebol não é o meu forte, apesar de gostar de entrar na quatro linhas virtuais através do PES. É um simulador, uma espécie de univero ideal para quem gosta de competir sem ter de correr atrás da bola.

As vantagens de passear os dedos pelo comando da Xbox dá-me uma vantagem útil sempre que entro num Taxi: sei o nome dos jogadores da selecção e de mais um outro das grandes equipas europeias. “Isto está uma porcaria, acho que não passamos”, diz o motorista em tom desencantado ao mesmo tempo que exibe o sarcasmo no canto dos lábios. Da selecção à estação de comboio foi um pulo. O último troço rumo à Impala,perto de Sintra, foi providencial.

– já estou a reconhecer este sítio, diz o motorista

– Sim, deve ter apanhado um serviço para Impala, respondo

– Não, pá! Já dei aqui uma grande foda com uma gaja que conheci na máquina de café da estação de comboio de Sete-Rios.

-…