Archive for the ‘ócio’ Category

Sobremesa de campeão

11 de Maio de 2010

A tasca é um lugar complexo. Não se deixem enganar pela aparente banalidade das conversas, ou pelo inconsequente ruído atirado pela televisão, em que o ecrã grita mais alto do que as colunas. No estabelecimento do César todas as palavras são importantes. Enquanto a colher agride o pires, e este dá uma palmada nas longas costas do balcão frigorífico, os homens substituem os mais notáveis comentadores com opiniões tão escorregadias como óleo depositado no grelhador. O enredo da telenovela substitui o jornal da tarde. O Papa e o SLBenfica, que fizeram esquecer a crise, também se tornam pequenos perante o enredo da novela que conta a história de uma qualquer família mafiosa brasileira, que tem um comportamento italiano. Com o cotovelo bem apoiado sobre o balcão, uns sussurram a palavra “bandido”, outros optam, ou por um som acetinado e dizem “malandro”, ou pela acústica  virtuosa da palavra “vigarista”.

– Isto só ensina coisas para a bandidagem. Depois querem que não haja assaltos. Já agora, ó César, dá-me cá uma ferradura
-Vais comer isso com Whisky?
-Apetece-me, pá
-Epá, estás mesmo a precisar duma.


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Infância

13 de Setembro de 2009

O passado surge sem intencionalidade. Uma tarde solarenga convida à leitura da jornalada numa esplanada qualquer – quem me conhece sabe que a aleatoriedade se restringe a o Zoo de Lisboa – enquanto trabalho para o bronze preferido pelo motorista da carris: onde falta pano, sobra bronze.

A s notícias impressas na papelada levam-nos à catedral, entenda-se Colombo. Um sacrifício tão improvável como a hipotética conversão de Ferreira Leite ao rosa socialista ou à construção de uma paragem para o TGV em Arruda dos Vinhos ou em Vale Fetal. A causa era nobre: O último romance do Nick Cave (A Morte de Bunny Monro) – leia-se segundo – estava à nossa espera na prateleira da Fnac.

As palavras impressas são preciosas, mas o espaço é dispensável. A glória,  pensámos, estava coberta pelo plástico amarelado do saco. Protegido pelo invólucro descartável, nada atinge o livro. Os pés galgam a calçada contra um mar de gente que vinha da Feira da Luz, uma recordação da infância. Fora do papel, os diálogos são vernáculos. As frases são editadas pela injustiça do imediato e invadem os ouvidos, mesmo os desatentos.

– Vamos comer? , pergunta uma cinquentona, com o dobro em peso, ao grupo de amigas.

– Outra vez?, retorque a companheira de compras domingueiras. Ainda agora acabei de arrotar ao bife que comi ao almoço.