Posts Tagged ‘cinema’

Elas mandam

21 de Junho de 2010

Zoe (Jennifer Lopez) era um quadro de sucesso que optou por investir numa loja de animais. A estabilidade económica faz com que a protagonista possa viver dos rendimentos proporcionados pela venda dos pequenos companheiros do homem, porém a estabilidade financeira não se revela suficiente para atingir o equilíbrio. A protagonista de Plano B…ebé (The Back-Up Plan) nunca conseguiu ter uma relação estável que lhe permitisse ter filhos. A solução do problema poderia passar pela adopção, mas a protagonista opta pelo “milagre”da genética. A reprodução medicamente assistida é uma imagem rica, mesmo quando é explorada da forma mais fácil, a explícita.  Um só plano revela  as pernas de Jennifer Lopez erguidas em V , enquanto espera que a semente aterre em solo fértil. Todo o erotismo é aniquilado, mas o que se perde em tensão sexual, ganha-se em gargalhada.

Porém, a linha de força do filme não se prende tanto com o facto de uma mulher querer ser mãe solteira sem necessitar de ter qualquer compromisso. Esta é revelada depois de Zoe saber que está grávida. O terror pelo compromisso é substituído por Stan (Alex O’Loughlin), um produtor de queijo que alia aos escassos atributos intelectuais (do ponto de vista académico) o parco poder financeiro. Enquanto ela vive atrás dos desejos de grávida, Stan assume o papel que socialmente é atribuído à mulher. Ele vai ao parque falar com outros pais para poder perceber melhor as fases de crescimento dos futuros filhos encomendados por Zoe, trata de arranjar uma forma de emagrecer o carrinho de bebé demasiado obeso para entrar no apartamento. Ele, o homem, neste filme, não detém o poder económico. Não decide, apenas reage e garante que saberá tratar da família. Plano B…ebé teria uma narrativa machista se o protagonista (certamente que teríamos de esquecer o processo de inseminação) fosse Stan?

Anúncios

Fim-de-semana “Nas Nuvens”

22 de Janeiro de 2010

O último filme protagonizado por George Clooney  não garante apenas bom entretenimento. As gargalhadas são garantiadas, mas a base da narrativa passa pelo drama existência de homem, Ryan(George Clooney)  sem raízes.

Para o viajante , o prazer é um conceito tão variável que impossibilita a atribuição de um valor padrão. Para o comum mortal, a ideia de viajar está associada a uma forma de quebrar com as rotinas, uma oportunidade para explorar o desconhecido. Mas Jason Reitman decidiu perverter o estereótipo. Em “ Nas Nuvens”(“Up In The Air”), o realizador aproveita as mudanças bruscas impostas pela subida dos preços dos combustíveis e pelos efeitos da bolha imobiliária para apresentar um dilema existencialista : O que é mais valioso: A leveza ou o peso?

Ryan Bhingam (George Clooney) é um bon vivant que consegue retirar o melhor de uma profissão pouco atraente do ponto de vista humano. A sua capacidade de comunicação fez com que o profissional de recursos humanos apenas seja solicitado no momento em que é preciso rescindir contrato com os quadros “dispensáveis”. O cenário catastrófico desenhado por cada desempregado não consegue suscitar qualquer indício de compaixão. As mulheres, os filhos, a casa, as recordações dos momentos felizes são, para Ryan, o incomodo excesso de peso que conduz à imobilidade.

As situações de crise, as lágrimas derramadas, e as ameaças de suicídio têm uma recompensas: as viagens, O desgaste emocional é atenuado sempre que entra a bordo do avião, não pelo prazer de viajar, mas pelo objectivo de acumular 10 milhões de milhas no cartão de fidelização da transportadora aérea. Os nomes da cidades mudam, mas tudo é impessoal. Os aviões distinguem-se pelos autocolantes colados no exterior, os quartos de hotéis parecem siameses e o relacionamento humano não ultrapassa o limite imposto pelo protocolo. O estilo de Ryan é um exemplo a seguir. Além do trabalho, o protagonista dá conferências, pagas a peso de ouro, sobre motivação, mas só os pontos têm valor.

A crise que deixa milhares no desemprego também põe em causa o objectivo de vida do protagonista. Em tempos de crise, todos os custos são supérfluos. Natalie Keener (Vera Farmiga), 23 anos, é uma recém licenciada acabada de chegar ao mercado de trabalho. A jovem colaboradora encontra uma forma quase miraculosa para reduzir a curva das despesas. As novas tecnologias são a solução. Alex propõe às chefias que os despedimentos sejam feitos através de videoconferência. O monitor passa a desempenhar o papel de médium: a empresa reduz custos, mas impessoalidade passa a conhecer o seu auge, num momento difícil para quem perde a estabilidade do rendimento.

Os motivos éticos são belos. Despedir alguém através de videoconferência pode ser desumano, mas Ryan apenas deseja continuar a voar com a sua mala quase vazia..O peso retira mobilidade ao ser humano, retira o prazer de viajar pelo Mundo. O chefe sugere uma viagem a dois, uma oportunidade para o protagonista revelar as vantagens da comunicação interpessoal face às novas tecnologias. Dois Mundos distintos são obrigados a conviver durante dias. De um lado, o homem que assume não desejar qualquer compromisso; ela, aos 23 anos aspira ao casamento tradicional e à vida em família.

Entre as viagens de negócios, Ryan conhecera  Alex Goran (Vera Farmiga)) num bar. O conhecimento trava-se com uma batalha, onde ambos aproveitavam para ostentar os cartões de fidelização de inúmeros serviços essenciais para quem passa a vida a viajar. Os troféus antecedem a entrada no impessoal quarto de hotel.

As medidas de contenção e o casamento da sobrinha, Julie Bingham ( Melanie Lynskey), fazem com que o protagonista questione o seu objectivo de vida. Para a cerimónia, Ryan convida a mulher seduzida pela guerra de cartões.

A existência do ser humano até pode ser destituída de fundamento, mas o absurdo pode ser mais suportável a dois. “Nas Nuvens” é uma reflexão sobre o papel do homem do Mundo. O peso dos afectos surge como a antítese de uma vida sem laços. Ryan tornou-se o homem mais jovem a acumular 10 milhões de milhas, mas onde é a sua casa?

Jason Reitman, realizador, aproveita um momento de transformação social para fazer uma questão que inspirou dezenas de sobras transversais ao cinema e à literatura: desde A Insustentável Leveza do Ser, onde Kundera reflecte sobre o peso e a leveza da existência humano, até ao conflito entre materialismo/ imaterialismo apresentada por Andrei Tarkovsky em ”Solaris” (1972) ou no remake realizado em 2002 por Steven Soderbergh, também protagonizado por George Clooney. Tal como acontece com estes títulos, “Nas Nuvens” é uma profunda reflexão sobre a condição humana.

Nine

18 de Janeiro de 2010

Eis que surge sob a forma de musica um filme que desmistifica o cinema italiano. Com um argumento muito longe de ser rico, o filme merece ser visto  qualidade da fotografia, guarda -roupa e banda sonora.  A histaória não podia ser mais latina. Guido Contini é o Camões lá do país com forma de calcante.   As obras do realizador não são mais do que a extensão da sua vida errante, pautada por paixões avassaladoras condimentadas  pelo sua rica imaginação, que acaba por ser impenetrável para as suas amantes. Sem musas não  há arte. Sem arte as mulheres não ultrapassam , para o protagonista, a banalidade da carne. A palavra acaba por ser quase irrelevante durante os 118 minutos de filme. Tudo superficial, auditivo e visual. Nine é filme mais físico de 2010.

Esperança popular

20 de Setembro de 2009

O filme tem sido esquartejado pela crítica. É certo que “A Esperança Está Onde Menos se Espera” não é uma obra prima da sétima arte, peca pela falta de universalidade. Porém, apesar de estar longe do Mundo, está no centro de Portugal, recorrendo a cenários cliché da cidade alfacinha: Cascais e Cova da Moura. É uma tentativa de Joaquim de Oliveira organizar o quintal à beira-mar plantado, como revela esta resposta que faz parte de uma entrevista que pode ser lida, na integra, na revista Focus

Em Portugal vive-se uma grave situação económica , mas neste caso a família atingida pela crise vive bem, mas de forma precária. Não podem ser considerados ricos, são de classe média…

Joaquim Leitão: Conto a história de pessoas que têm um bom ordenado, têm uma vivenda, mas não é deles: têm de pagar um empréstimo. O ordenado é bom, mas tudo o que é ganho é gasto. Quando ficam sem o ordenado. Tudo se perde. Nada lhes pertence. As despesas são de tal forma altas que não podem ser liquidadas. Numa das cenas do filme, a Mãe é confrontada com o salário mínimo, mas provavelmente a quantia corresponde àquilo que ela estava habituada a gastar em roupa.

PS.  O cinema pode ser simples, pode ser popular

A Esperança Está Onde Menos se Espera

9 de Setembro de 2009

O cinema português está mais inteligente e realista. Os argumentos com diálogos tirados de um qualquer romance com aroma a naftalina foram trocados pelo quotidiano, sem com isso perder dimensão artísticas. O Filme de Joaquim Leitão podia ser um dos bons exemplos de bom cinema em Portugal, mas o realizador preferiu fechar o final do filme. Um fim fácil para uma boa história.